APRESENTAÇÃO, PATRIMA2016, LISBOA
- Isabel Tissota,b, Maria F. Guerrac. 2016. Influência das técnicas de fabrico nas estratégias de conservação de ourivesaria. In Congresso Ibero-Americano "Património, suas matérias e imatérias", Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 2 Nov., Lisboa.
a LIBPhys, Universidade Nova de Lisboa b Archeofactu c ArchAm - UMR 8096 CNRS, MAE, Nanterre, França
Congresso Ibero-Americano "Património, suas matérias e imatérias"
O Património Cultural (PC) é aceite pelas sociedades contemporâneas como afirmação da identidade colectiva e como suporte dos imaginários sociais. Ele desperta interesses que vão para além da cultura e da ciência, constituindo também uma realidade económica incontornável. As formas como os valores patrimoniais são constituídos, utilizados, transformados e conservados reflectem o tempo em que ocorrem e a capacidade que, em cada momento, a sociedade, através dos grupos de interesse, se dispõe a utilizar para intervir activa ou passivamente nos processos relativos ao património. O interesse que a sociedade manifesta pelo PC afigura-se ainda como uma forma de inserção de um presente descontínuo numa continuidade cronológica que o património materializa. Isso torna o património um agente de reencontro que nos transporta às memórias que, a priori, pareciam perdidas num passado longínquo. Neste fenómeno entra uma componente imaterial que remete para uma reflexão sobre os objectos e a sua materialidade, mas também para a interrogação sobre a nossa condição de ser no mundo contemporâneo. Nas entrelinhas deste fenómeno deparamos, ainda, com questões relacionadas com a degradação socio-ambiental, a crise de valores, a terciarização do património, os ideais de modernização e inovação, a extensividade do fenómeno de patrimonialização e a propagação das dinâmicas de concorrência entre contextos com património. A reflexão sobre o PC requer, pois, englobar as componentes materiais e imateriais do património no contexto duma sociedade instável e em acelerada transformação. No que respeita ao que e ao como fazer pelo património, de um ponto de vista técnico-científico, muito se avançou aquando das intervenções de conservação e restauro, mas subsistem lacunas no que respeita às dimensões sociais e culturais dos contextos de património. A insuficiente discussão dos aspectos imateriais e o escasso envolvimento da sociedade ajudam a explicar o reduzido peso das críticas feitas aos processos de patrimonialização, culturalização e turistificação dos contextos. O que é, como vemos, e o que podemos fazer pelo PC são questões centrais para se viver o património. O que e como classificar e salvaguardar exigem processos dinâmicos e complexos e a sua operacionalização tem de integrar a diversificação sociocultural da sociedade. Lidar com a complexidade induzida pelo binómio desenvolvimento sociocultural e conservação implica abordagens multidisciplinares e o cruzamento entre materialidade e imaterialidade.

